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André Andriw

Consultor Financeiro Sênior da Gröwnt

Como se preparar para Captar Financiamento à Inovação?

Saiba como captar financiamento para inovação

Como se preparar para Captar Financiamento à Inovação?

Captar financiamento para inovação é essencial para que as empresas possam desenvolver novos produtos, serviços e processos que lhes permitam manter a competitividade no mercado nacional e internacional. Com efeito, muitos países incentivam suas indústrias nacionais por meio de instrumentos financeiros subsidiados a fim de aperfeiçoar a qualidade dos seus bens e serviços no longo prazo, gerando externalidades positivas nos setores incentivados, como a substituição da dependência de produtos primários (commodities) por meio da especialização produtiva e tecnológica, bem como desenvolvimento e retenção de capital intelectual avançado no país.

 

No Brasil, a política industrial foi sintetizada no Programa Nova Indústria Brasil (NIB) em 2024 com intuito de orientar os esforços de (re)industrialização por vias mais sustentáveis, tornando o parque industrial brasileiro moderno e competitivo no mercado internacional até 2033. Os braços de financiamento à inovação dentro da NIB são a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), os quais somam juntos  271 bilhões de reais em potencial de liberação de crédito para inovação até 2026 (Agência Brasil, 2024).

 

A FINEP é uma organização estatal de fomento onde o foco é fomentar projetos de inovação de empresas e instituições de ciência e tecnologia (ICTs) com recursos reembolsáveis (financiamentos) e não reembolsáveis (investimento a fundo perdido). O primeiro está disponível na modalidade direta, em que a FINEP estabelece relacionamento com grandes empresas. Na modalidade indireta, o financiamento é distribuído por agentes financeiros habilitados pela FINEP com intuito de alcançar empresas de pequeno e médio porte (FINEP, 2025).

 

Por sua vez, o BNDES é um Banco de Desenvolvimento especializado em fomento industrial e infraestrutura. O banco possui histórico de atuação em fomento à inovação por meio de fundos de equity e financiamento com linhas de crédito indexadas pela Taxa de Longo Prazo (TLP). Em 2023 passou a financiar projetos de inovação empresarial com linhas atreladas a Taxa Referencial (TR) como parte do esforço de acelerar a implementação da neoindustrialização nacional (BNDES, 2023). O BNDES também opera no formato direto, focando em grupos econômicos, e indireto, modalidade que possui bancos privados como parceiros para distribuição de crédito (BNDES, 2025).

 

 

Fato é que tanto a FINEP como o BNDES buscam financiar projetos de inovação empresarial ancorados na NIB com intuito de gerar externalidades positivas na economia brasileira. Por isso, a captação de financiamento para inovação é desafiadora, o que demanda estudo, planejamento e execução coordenada de atividades paralelas. Dada complexidade, o objetivo deste artigo é oferecer orientações de preparação da empresa para se tornar elegível ao pleito de financiamento para inovação

 

 

Documentações para Cadastro da Empresa

 

O primeiro passo para captar financiamento para inovação é reunir as documentações primárias para viabilizar o cadastro da empresa nas organizações de fomento, como BNDES e FINEP, bem como seus agentes financeiros habilitados. Destaca-se a necessidade de verificar se a empresa está em conformidade tributária, trabalhista e ambiental, já que a captação de financiamento incentivado demanda regularidade com as leis e, caso a empresa apresente problemas, recomenda-se a resolução antes de iniciar a captação.

 

Assim, os gestores devem elaborar os documentos com antecedência a fim de evitar atrasos no fluxo de captação. Os documentos são de natureza contábil, financeira, jurídica e ambiental e estão no rol de políticas cadastrais da  FINEP (2025) e BNDES (2025)

 

Documentação Financeira: demonstrativos financeiros (Balanço Patrimonial, Demonstrativo de Resultado do Exercício, Demonstrativo de Fluxo de Caixa) dos últimos três anos assinados por contador e representante legal, balancete atualizado do ano corrente assinado por contador e representante legal, quadro atualizado de endividamento da empresa, Curva ABC de produtos, clientes e fornecedores, Organograma/Estrutura Societária com nomes e percentuais de participação

 

Documentação jurídica da Empresa: Contrato social e suas atualizações, Ata de eleição de membros do Conselho de Administração, Ata de Eleição dos Diretores/Procurações dos Diretores, Acordo de Acionistas, Licenças Operacionais e Ambientais, Certidões Negativas (ou positivas com efeito de negativa) na esfera Tributária, Trabalhista, Cível e Criminal

 

Documentação de Sócios Controladores

  • Controladores Pessoa Jurídica: Contrato Social e suas atualizações, Ata de Eleição do Conselho de Administração, Ata de Eleição da Diretoria/Procuração, demonstrativos financeiros dos últimos três anos assinado por contador e representante legal, balancete do ano corrente com assinatura do contador e representante legal

 

  • Controladores Pessoa Física: CPF e RG, comprovante de endereço, IRPF e comprovante de entrega do IRPF

 

  • Uso de imóveis como garantia: documentação do imóvel (matrículas, certidões negativas emitidas em cartórios de imóveis), laudo de avaliação do imóvel (se houver)

 

Vale mencionar que empresas com receita bruta anual superior a 300 Milhões de reais e/ou com Ativo Total superior a 240 Milhões de reais devem possuir, obrigatoriamente, demonstrativos financeiros auditados por auditores independentes cadastrados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Ademais, empresas que fazem parte de Grupo Econômico devem possuir demonstrativos financeiros combinados ou consolidados como forma de se valer da condição de avaliação de risco e crédito em Grupo Econômico.

 

Por outro lado, embora as empresas com receita bruta anual menor que 300 Milhões de reais não sejam obrigadas a auditar os seus demonstrativos financeiros, recomenda-se justamente por identificar riscos e propor melhores práticas de gestão corporativa, aumentando a confiabilidade da empresa perante os investidores. No geral, as organizações de fomento podem solicitar documentos adicionais sempre que for necessário durante a captação.

Projetos de Inovação

Para ter sucesso na captação de recursos, é crucial que a empresa identifique e verifique internamente os projetos que podem ser caracterizados como inovação. Estes projetos devem apresentar um potencial claro para oferecer melhorias significativas em produtos, serviços ou processos no futuro da Companhia, e devem estar alinhados com estratégias de inovação das organizações de fomento que oferecem o financiamento.

 

Nesse sentido, os gestores de inovação ou de projetos da empresa devem classificar internamente as iniciativas de inovação de acordo com as melhores práticas de gestão de inovação, referenciando-se pelo Manual de Frascatti e Manual de Oslo, ambos utilizados  pela FINEP para embasar as avaliações dos projetos de inovação. Tais avaliações são ancoradas em direcionadores de grau de inovação e relevância da inovação para o setor econômico de atuação da empresa.

 

A composição dos investimentos é outro critério fundamental de avaliação do projeto de inovação. Por isso, cabe aos gestores entenderem que a formulação do orçamento envolve considerar não apenas máquinas, equipamentos e obras, mas também equipe própria, serviços de terceiros, itens laboratoriais, testes e softwares. Encontrar o equilíbrio entre os itens que compõem os investimentos é um fator crítico para o sucesso da captação e envolve o entendimento profundo das necessidades associadas a cada etapa de desenvolvimento do projeto.

 

Um exemplo de boa prática de mapeamento das etapas de desenvolvimento é o uso do Nível de Maturidade Tecnológica (TRL) para classificar a maturação dos produtos inseridos nos projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I), bem como do Nível de Maturidade de Manufatura (MRL) para identificar a maturidade de processos produtivos. Quando aplicadas, as duas métricas permitem enxergar as etapas de evolução do projeto de inovação, destacando-se recursos e desafios a serem superados do básico (TRL 1-2) até inserção e validação no mercado (TRL 7-9).

 

 

A participação de Instituições de Ciência e Tecnologia (ICTs) ou Universidades dentro do projeto de inovação é uma excelente estratégia para superar desafios de maneira colaborativa e reforçar o mérito inovador da empresa. Essa estratégia gera externalidades positivas (capacitação de pessoal e investimento no sistema de ciência, tecnologia e inovação) e redução de custos, já que parte das etapas de desenvolvimento pode ser trabalhada por instituições parceiras em sua própria infraestrutura de PD&I.

 

Por último, mas não menos importante, é vital organizar um cronograma físico-financeiro do projeto de inovação, alinhando as etapas de desenvolvimento com as metas do projeto. Adicionalmente, recomenda-se detalhar os itens financiáveis e explicar suas funções dentro das etapas de desenvolvimento do projeto. Caso os gestores de inovação não consigam classificar os itens conforme as políticas de financiamento, bem como explicar objetivamente suas funções, a qualidade do projeto será comprometida, inviabilizando a captação de recursos.

Planejamento da Captação

O último passo envolve o planejamento da captação, cuja execução deve ser balizada por um alinhamento da alta gestão sobre o uso de financiamento para inovação. Isso é relevante, porque se trata de uma estratégia de captação de recurso complexa, com exigência de garantias e prazo médio para desembolso entre 6 e 12 meses. Assim, o financiamento não deve ser confundido com alternativa de curto prazo, como operações de capital de giro para fechamento de caixa.

 

O pipeline de projetos priorizados pela companhia deve ser aprovado internamente, evitando, assim, interrupções do fluxo de captação para não só aprovar em Conselho de Administração, mas também em órgãos reguladores competentes para execução do projeto. Por isso, a coordenação entre áreas financeiras, jurídicas e de projetos é crucial para o sucesso da captação.

 

Adicionalmente, a alta gestão deve compreender qual organização de fomento se adequa às suas necessidades, condições econômico-financeiras e política de compliance. Importante destacar a possibilidade de ter mais de uma opção de garantia para cobrir a operação, pois operações de financiamento à inovação são ancoradas preferencialmente em fiança bancária para maximizar a redução de riscos. No mais, o uso de imóveis está condicionado à avaliação de crédito da empresa, exigindo-se cobertura de 130% do valor a ser financiado mais aval de sócios.

 

Como BNDES e FINEP possuem diferentes políticas de financiamento, ao escolher uma instituição de fomento sem conhecimento prévio, a captação poderá ser comprometida durante as fases de cadastro, avaliação e aprovação do projeto em comitê. Até mesmo operações bem-sucedidas enfrentam desafios durante a prestação de contas do uso dos recursos, visto que a passagem de bastão entre o time de inovação e financeiro contábil não carrega as boas práticas de gestão de funding da FINEP e BNDES.

 

Na Gröwnt, trabalhamos junto ao cliente para mitigar esses riscos mediante análise criteriosa da situação econômica e financeira da empresa, bem como do portfólio de projetos a fim de selecionar a agência de fomento adequada. O resultado é uma jornada de captação ágil e assertiva dentro do rol burocrático da FINEP, BNDES e agentes financeiros habilitados.

 

No todo, a captação de financiamento para inovação é complexa e precisa de planejamento e execução coordenada de ações em paralelo para viabilizar o projeto de inovação. Começar assertivamente reduz custos, atritos entre departamentos e impulsiona as iniciativas de inovação.